[1] Editora 34, R.J., 1992

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O FUTURO ENQUANTO HISTÓRIA

Ciro Moroni Barroso

 

Coletânea Pontos de Fuga – Um Seminário Transdisciplinar

da Universidade Livre do Rio de Janeiro [1994, Parque Lage]

Taurus Editora, R.J., 1996

[pág. 71] [revisto 1999]

 

[ 1 ]

 

Duas dificuldades filosóficas parecem marcar nossa contemporaneidade: a primeira, a disjunção entre sentido histórico e sentido estrutural; e a segunda, o estranhamento entre história e devir.

A melhor solução para a primeira dificuldade está provavelmente em que a história (a disciplina da História) seja dada exatamente como a análise, a avaliação, de como as estruturas são transpostas, transformadas, no tempo (segundo modelos teleológicos ou não).

Quanto ao devir, vale lembrar uma sentença de Nietzsche, citada por Gilles Deleuze em termos de que “nada importante se faz sem uma densa nuvem não histórica”. Segundo Deleuze, o devir inteiro de um acontecimento escapa à história; a história é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que a ela escapa. (Conversações, pág. 210) [1]

Há sem dúvida um devir super-potente que precede, de forma um tanto furiosa, a história e/ou a transposição das estruturas antropológicas, que é capaz de engolí-las por inteiro, ou espatifá-las. Em sequência ao devir antropológico, como um efeito deste, ou resposta natural, há ainda, sem dúvida um devir micro-físico, molecular, que resiste a todo enquadramento em termos de ciência, leis, normas...

 

A despeito do valor dessas observações filosóficas, é preciso, entretanto, observar que:

1) Verifica-se uma capacidade de reaparecimento, permanência, regeneração, reatualização, por partes das gestalts, isto é, das estruturas de significação social, humana, antropológica. Exemplo disso é o reaparecimento das nações e conjuntos etno-linguísticos enquanto potências políticas, revolucionárias, militares, de fanatismo religioso, etc. Outro exemplo é a permanência do capitalismo enquanto a grande Gestalt, a infra-estrutura de nossos tempos, imponente usina-signo-mór. Um exemplo ainda, no interior desta mesma estrutura, o encastelamento e vitória tática permanente, por parte daqueles que compõem a figura do mundo financeiro, misteriosa gestalt & reprodução ainda mais perversa do ideal ascético.

2) O intempestivo como contra-efetuação, como diferencial que opera numa certa frequência, com seu desenvolvimento lateral em relação ao devir histórico, pode significar apenas operações de transição de uma estrutura (histórica) para outra. Se o intempestivo é um condutor que faz uma ligação instantânea entre a história e o devir, permitindo que elementos históricos possam “ascender” à sua condição no devir, é certo, igualmente, que a história, por seus próprios méritos e segundo seu processo interno, pode igualmente “ascender” como um todo ao devir.

3) O devir cósmico nos atinge atravessando uma superfície antropológica, e é através dela também que impomos efeitos, ou recebemos respostas, em relação ao devir micro-físico natural, orgânico. Essa superfície é o acabamento, a “pele” das estruturas de significação e experiência formadas pelas sociedades humanas em diversas conjunturas.

 

[ 2 ]

Com todos os “encerramentos” decretados da historicidade, ela está entre nós como sempre esteve, ainda que sob uma forma contemporânea bizarra, retorcida, mutilada, desertada. É o sentido da contemporaneidade que devemos buscar, de preferência a um sentido pós-moderno, ou intempestivo, ou saudosista do moderno, ou de futurismo meramente utópico. A história como as formas articuladas no tempo e na sociedade, dentro das quais os humanos se formulam, se expressam, se informam, de alguma maneira evoluem de fato em termos do que é ainda para nós a cultura, civilização, conhecimentio, arte, etc.

O filósofo Gilles Deleuze é um exemplo em questão na medida em que a força de seu pensamento reside exatamente em sua inserção contemporânea, e não em seu pós-modernismo, ou em sua intempestividade, como se poderia supor. É incrível que se possa aprisionar em termos de modismo um autor que requer apenas que sua filosofia seja utilizada, processada, revirada, passada a diante. Foucault, que em outras questões filosóficas é bastante sóbrio, é responsável pelo clichê que faz de Deleuze o filósofo “do século” (“Talvez um dia o século seja deleuziano”). Mesmo aí, Foucault está deixando passar a historicidade, a secularidade de seu amigo filósofo (junto, é claro, com o sentido ambíguo em que, através de Deleuze, o século é exposto ao devir). Este último, por sua vez, é bastante explícito numa sentença, colhida talvez ao acaso, em que afirma: “Foucault sempre se serviu da história assim, ele viu nela um meio de não enlouquecer”... (Conversações, pág. 129)

As linhas de fuga em relação à estrutura, ao significante que nos é dado, as intervenções intempestivas, contudo, estão aí, não para convocar novas potências à historicidade, mas para fazê-la desaparecer, deixando orfãos. É assim que, da contracultura californiana dos anos 60, que com toda sua diferencialidade em relação à estrutura dominante, era muito mais capaz de regenerar a história, reinaugurá-la, do que poderia parecer a princípio (em contraste com o maio de 68 francês, por exemplo); é assim que do melting pot sintetizador dos 60, surgiram os movimentos que se pretendem meramente “alternativos” dos anos 70, que se propuseram a uma negação não apenas da cultura ocidental, mas de qualquer historicidade. Negação da proposta de que a liberdade seja resultado de uma articulação social (aquilo que a Esquerda ainda é, com todas suas derrotas), fuga da estrutura, afirmação de uma liberdade individualista histérica, estilos de amnésia e anti-sociabilidade, desperdício das possibilidades que seriam obtidas no processo de conhecimento histórico e articulação política – toda essa condição que se dá apenas como “posterior” à modernidade – uma certa nostalgia sem futuridade.

Duas outras modalidades de “fim” da história se apresentaram nos anos 80: a de retorno de messianismo bíblico e de “Juízo Final”, com todo o reaparelhamento dos dispositivos esotéricos do catolicismo medieval, o qual anuncia que toda a história seria apenas um teatro preparatório para o juízo disjuntivo de ressurreição ou condenação eternas (não nos enganemos a respeito da potência desse sentimento e desses dispositivos, junto às camadas populares evangélicas, mas também nas classes abastadas esotéricas); e uma outra modalidade, esta mais amena e ligadas aos movimentos “alternativos”, que é aquela do messianismo místico-holístico em moda, que anuncia o fim da história simplesmente, com a vigência de um estado paradisíaco na Terra, atemporal: todo o mito “aquariano”.

Esses processos todos, esquizo-paranóides, que permanecem doentios na medida em que recusam a estrutura e a historicidade, sem saírem delas de fato, sem serem capazes de dar nascimento a novas estruturas, convivem ainda com duas outras falsificações históricas: aquela que anuncia o fim da história em termos de uma vigência definitiva do modelo de iluminismo burguês – mas cuja avaliação filosófica se resume no fato de um recente proponente da tese ser filiado à Rand Corporation; e aquela outra que está na perspectiva do futurismo da science-fiction, que é, em termos gerais, com as devidas exceções de maladie esquizóide, não mais que a projeção do mesmo estrutural do séc. XX ao futuro.